Gorda num dia, bulímica no outro

Por que mais jovens sofrem dos dois problemas
CRISTIANE SEGATTO
Entrar na faculdade engorda. Não é de hoje que esse efeito colateral comum a tantos estudantes é observado e estudado. Nos Estados Unidos, existe até um termo popular para designar o ganho de peso que os alunos sofrem no primeiro ano da universidade. É o “freshman 15”. Isso porque os novatos engordam, em média, 15 pounds (6,8 kg) durante o primeiro ano. Universitários costumam consumir mais bebida alcóolica, pular o café da manhã e abusar de fast food. É uma fase desregrada e engordativa. Isso tudo parece óbvio. Menos óbvia, porém, é a quantidade de universitárias obesas que, na tentativa de emagrecer, se tornam bulímicas.

Um estudo recente conduzido pela professora Dianne Neumark-Sztainer, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, revelou que 40% das universitárias acima do peso adotavam comportamentos típicos de quem sofre de distúrbios alimentares como a bulimia. Em geral, elas comem enormes porções calóricas e depois provocam vômitos ou tomam laxantes. Entre os estudantes do sexo masculino, o índice é de 20%.

Ao contrário do que muita gente pensa, vomitar não emagrece. O corpo de quem tem bulimia cria mecanismos de absorção rápida. Manda os alimentos direto para o intestino, como se aprendesse que a comida não vai ficar muito tempo no estômago. Vomitar, portanto, não anula as calorias ingeridas. Usar laxante também não adianta: o remédio age no intestino grosso, quando os nutrientes já foram absorvidos.

“As pessoas estão preocupadas com o fato dos obesos se tornarem mais obesos e os magros se tornarem anoréxicos”, diz Dianne. “Mas ninguém se preocupa com os distúrbios alimentares sofridos pelos jovens que estão acima do peso.” Li essas declarações numa reportagem sobre o assunto publicada pela revista Newsweek e assinada por Johannah Cornblatt.

É um tema revelante. Os danos provocados pelos distúrbios alimentares são graves: infertilidade, perda óssea, dificuldades cognitivas e, em casos extremos, morte. Gordos e magros sofrem disso. Esse fato levanta uma interessante discussão: estimular na população a obsessão pela contagem de calorias traz algum benefício?

A justificativa para espalhar em restaurantes avisos com a quantidade de calorias de alimentos é tentar combater os alarmantes índices de obesidade (60% dos americanos e 40% dos brasileiros estão acima do peso). A medida nasceu de uma boa intenção, mas está provocando efeitos indesejados.

Nos restaurantes universitários americanos, os avisos sobre as calorias dos alimentos assustam as anoréxicas. Elas passam a comer cada vez menos. Também não parecem estar ajudando as obesas. Em vez de usar a informação para fazer combinações equilibradas, elas se apavoram com as calorias ingeridas. Muitas provocam vômitos.

Cartazes com informação sobre calorias foram removidos das paredes dos refeitórios da Universidade Harvard. A justificativa para a remoção foi a surpreendente quantidade de pessoas com distúrbios alimentares que a universidade descobriu fazer parte de sua comunidade.

Quadros como esse são úteis para as pessoas que sabem interpretá-los. Aquelas que entendem que representam guias gerais criados para facilitar escolhas. Na prática, porém, os especialistas têm observado que muita gente superestima o significado dos números.

Muitos se assustam com as 128 calorias de um copo de suco de laranja. Escolhem todos os dias um refrigerante diet com menos de uma caloria. Não levam em consideração o fato de que o suco de laranja garante nutrientes essenciais. O refrigerante é nada.

Esse policiamento ostensivo em torno da contagem de calorias não produz mais saúde – nem física, nem mental. Produz mais neuróticos. Quanto mais informação as pessoas recebem, menos conseguem seguir o caminho do meio, o do equilíbrio.

Tenho visto muitas pessoas com peso normal caindo nessa armadilha. Falam de calorias o tempo todo. Imaginam que o mínimo desvio do que acham ser uma alimentação saudável será capaz de provocar uma catástrofe no organismo. Não percebem que uma rotina de alimentação equilibrada e atividade física nos permite cometer pequenos pecados que dão sabor à vida: um brigadeiro, um torresminho, uma pizza sem um grama de culpa.

Esse distúrbio de comportamento tem nome: ortorexia. Escrevi recentemente uma reportagem de capa sobre isso. Nos próximos anos, é possível que ele seja classificado como um transtorno psiquiátrico — assim como a bulimia e a anorexia.

Pensei na ortorexia na semana passada, quando recebi uma mensagem aflita de um colega que havia lido uma reportagem sobre os malefícios do açúcar. O que me deixou preocupada foi perceber como a capacidade de julgamento dele estava prejudicada. O rapaz é inteligente, articulado, nada todos os dias, corre algumas vezes por semana e se alimenta de forma muito saudável. As nutricionistas que o acompanham recomendaram que ele consumisse um pouco mais de açúcar para melhorar seu desempenho na atividade física. Não vejo nenhum problema nisso. Mas o meu amigo ficou tão alarmado que resolveu disparar um email no domingão, às 8 horas da manhã, para sondar a minha opinião.

Minha resposta: “Você tem não apenas uma, mas duas nutricionistas cuidando da sua alimentação. Malha a semana toda e gasta todo o açúcar que ingere. Está preocupado por quê? Pare de pensar em dieta e vá ser feliz”. Acho que ele não ficou chateado. Está muito acostumado ao meu estilo objetivo – às vezes, excessivamente objetivo. Mas eu fiquei sinceramente preocupada com a paranoia sobre dieta e malhação que atinge cada vez mais pessoas das minhas relações.

Enquanto preparava a reportagem sobre ortorexia ouvi uma ótima frase da Mara Salles, a premiada chef de cozinha do Restaurante Tordesilhas, em São Paulo. Ela disse tudo: “As pessoas não estão perdendo só o prazer. Elas estão perdendo o juízo.”

Como ainda tenho algum juízo, assim que terminar de escrever esse texto vou sair para comer uma pizza de calabresa e tomar uma cervejinha. A semana foi pesada e eu nunca fui de ferro.

O que você acha? Queremos ouvir a sua opinião.

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